quinta-feira, 9 de junho de 2016



Este artigo foi publicado no UCHO.

 O colunista Rizzatto Nunes aborda com pertinência uma das causas para o eterno subdesenvolvimento do nosso país.

A inveja como elemento de estagnação social


(*) Rizzatto Nunes e Claudia Calmon



Começamos contando uma piada:Três estudantes que estavam na mesma Universidade, ao irem participar de uma excursão numa grande floresta, perderam-se do restante do grupo. De repente, um deles encontrou uma garrafa mágica, a abriu e dela saiu um gênio. Este disse aos três: “Eu sou um gênio e dou a cada um de vocês o direito de realizar um desejo. Vocês podem me pedir qualquer coisa”.

O primeiro, muito ambicioso e competitivo, disse: “Eu tenho um vizinho, o John, ele mora numa mansão incrível! Eu quero uma mansão maior que a dele”.

O segundo, do tipo solidário, disse: “Eu tenho um vizinho, o Henry. Ele mora num castelo maravilho. Eu quero um castelo igualzinho ao dele”.

O terceiro, invejoso, disse: “Eu tenho um vizinho, o Igor. Ele tem um porco. Eu quero que você mate o porco dele”.

Agora uma narrativa de quem sofreu os efeitos da inveja.

Bernard Tapie, o famoso empresário francês, em seu livro autobiográfico intitulado “Ganhar”, dentre várias narrativas interessantes sobre como vencer na vida, mostra como a inveja é antiproducente e sempre estimula a paralisia. E, a respeito dela, ele conta uma fábula. Vamos narrar com nossas palavras o que aprendemos dessa história. É mais ou menos assim:

Havia duas irmãs, uma bacana, simpática, de vida normal com altos e baixos como todo mundo, e outra, invejosa, que vivia sofrendo. Certo dia, uma fada madrinha aparece para a invejosa e diz: “Vejo que você sofre. Pelos poderes que eu detenho posso te dar o que você quiser. Basta você pedir”.

A moça, então, pergunta: “O que você dará para minha irmã?”

A fada responde: “Isso não é importante, pois para você eu darei o que quiser. Pode pedir. Pode pedir qualquer coisa. Pode ser um castelo, podem ser milhões em ouro; pode até ser um príncipe! É só pedir”.

A moça invejosa insiste: “Não! Primeiro eu preciso saber o que você dará para minha irmã?”

“Ora, peça qualquer coisa, eu tenho o poder de te dar…”, voltou a repetir a fada.

Mas, não adiantou. A invejosa repetiu:

“Não quero. Primeiro me diga o que dará para minha irmã”.

“Está bem”, disse a fada, dando-se por vencida, “Para sua irmã eu vou dar o dobro do que você pedir”.

Então, a moça invejosa, pensou um pouco e depois fez o pedido: “Está bem. Eu quero que você me fure um olho”.
***
Resolvemos escrever este artigo por termos lido uma matéria que falava do “ódio aéreo” e que estava gerando problemas em voos e preocupação de companhias de aviação. Esse tal ódio seria o dos passageiros da classe econômica em relação aos da classe executiva . Ódio? Sim, talvez alguns “odeiem” e sintam raiva. Mas, preferimos pensar na inveja, tema que trazemos hoje para reflexão.

O efeito da inveja na sociedade nem sempre é facilmente identificado; às vezes, nem mesmo o invejoso percebe claramente o sentimento. Até atitudes de sarcasmo ou ironia podem ocultar a inveja.

De todo modo, o que os pesquisadores mostram é que em locais nos quais as pessoas são invejosas, a sociedade fica estagnada, parada ou até mesmo anda para trás. Ao contrário dos meios competitivos, onde o movimento social é para a frente, em direção ao progresso.

Quando pesquisamos a doutrina sobre a inveja, percebemos que alguns dizem que o invejoso quer possuir o que o outro possui. Mas, isso não é verdade. Quem diz isso não entende a inveja.

O invejoso não quer o que o outro tem. Não! Querer o que outro tem está ligado à admiração e também à competição. Com efeito, a admiração é um sentimento positivo, pois faz crescer o admirado e o admirador. Queremos dizer: de algum modo, quando alguém admira o outro ou as obras e realizações do outro, este é enaltecido e elevado moralmente (e, muitas vezes, materialmente, quando, por exemplo, valorizam-se suas obras) e, de certo modo, o admirador também se enaltece, pois participa de alguma maneira do objeto admirado; guarda-o dentro de si, faz com que ele melhore sua alma, sua experiência de vida.

Assim, a admiração e também os modelos competitivos estimulam os agentes sociais e impulsionam o movimento das sociedades; são elementos dinâmicos que dão vida e geram progresso. E não pensemos que competição diz respeito apenas aos esportes. Ela está em todos os lugares e se for bem administrada é bastante saudável: existe competição entre cientistas, pesquisadores, escritores, artistas, professores, médicos, advogados, engenheiros, etc. E a história da humanidade mostra como isso é muito bom com os casos de desenvolvimento e superação: um superando o outro, um ultrapassando o que o outro fez, melhorando suas invenções, aperfeiçoando sua arte, reorganizando as pesquisas do outro, aperfeiçoando seus produtos e serviços etc.. E isso é progresso.

Já, como dizia Bertrand Russell, “o invejoso, em vez de sentir prazer com o que possui, sofre com o que os outros têm”. Ele é, assim, negativo e inativo, passivo. Fica no sofrimento olhando o outro. E o mais importante: ele não quer ter o que o outro tem; nem igual nem melhor. O invejoso quer tirar o que o outro tem!

Mas, como dito acima, nem sempre a inveja é facilmente identificável, porque o invejoso pode agir nas sombras, às escondidas, por meio de intrigas e fofocas. Ele aumenta, inventa, deturpa, sempre com o objetivo de diminuir a imagem do invejado ou tentando fazer com que o invejado perca o que possui, que pode ser uma propriedade, um cargo, um título honorífico, um namoro ou casamento sólido, a alegria no lar, a felicidade entre amigos, um emprego seguro, rentável ou que dê visibilidade, enfim, qualquer bem material ou imaterial que afete o invejoso.

Portanto, a inveja é sempre negativa, é ação de diminuição de bens, posições, dignidades. O invejoso, como da anedota ou o da fábula narrada acima, prefere perder um olho para cegar o invejado do que enxergar melhor que ele.

(i) – Claudia Calmon é pedagoga, formada pela PUC/SP e fez cursos de especialização no Instituto Loris Malaguzzi em Reggio Emilia, Itália, e com Howard Gardner em Harvard.
(ii) – Matéria publicada no Caderno de Turismo do jornal “Folha de São Paulo” de 6-5-2016.

(*) Luiz Antônio Rizzatto Nunes é professor de Direito, Mestre e Doutor em Filosofia do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); Livre-Docente em Direito do Consumidor pela PUC-SP e Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo.

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