quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Não há como discordar!

O Brasil só se encontra neste estágio de crise, em razão da atuação dos membros do STF.



sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Quer entender o fracasso da educação brasileira? 

Leia a reportagem abaixo (aqui o link para o original publicado no jornal "Gazeta do Povo"). 

É pedagógico, se me permitem o trocadilho. 


A transcrição que segue foi publicada também no Blog do Orlando Tambosi, cuja leitura diária é imperdível, e pode ser acessada pela minha lista de blogs, no lado direito desta página (aqui o link para o post no referido blog).


TERÇA-FEIRA, 6 DE NOVEMBRO DE 2018


As distorções ideológicas do Enem

Mera pergunta isolada em exame pode parecer pouco, mas reflete uma tendência maior: é consequência direta da confusão entre Estado, agenda e escola. Reportagem da Gazeta do Povo, observando o viés ideológico esquerdista dos professores que elaboram a prova do Enem:


O primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no último domingo (04), manteve o perfil de abordar temas sociais. Nas provas de Linguagens e Ciências Humanas, as questões trouxeram assuntos como feminismo, direitos humanos, refugiados, gênero e diversidade. 

Já na prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, as questões passaram por temas como racismo, feminismo, travestis, lésbicas e diversidade. Em uma pergunta era necessário interpretar um trecho do conto “Vó, a senhora é lésbica?”, de Natália Borges Polesso. Outra pergunta abordava o Pajubá, dialeto adotado por gays e travestis.

“'Nhai, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!' Entendeu as palavras desta frase? Se sim, é porque você manja alguma coisa de pajubá, o 'dialeto secreto' dos gays e travestis”, propunha o texto.

O presidente Jair Bolsonaro criticou a questão: "Uma questão de prova que entra na linguagem secreta de travesti não mede conhecimento nenhum. Temos que fazer com que o Enem cobre conhecimentos úteis", disse Bolsonaro em entrevista ao programa Brasil Urgente nesta segunda-feira (5).

Fracasso sistêmico

“A proposta do ENEM é, em si, fadada ao fracasso. Você jamais conseguirá reunir em exame único de abrangência nacional aspectos científicos e/ou culturais de uma nação de dimensões continentais”, avalia Dennys Garcia Xavier, professor Associado de Filosofia Antiga, Política e Ética da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Doutor em Storia della Filosofia pela Università degli Studi di Macerata.

“A não ser em um único caso: que avaliássemos os resultados de currículo mínimo empregado em todo o país, sem qualquer elemento próprio de regiões, aspectos antropológicos ou notas culturais de regiões específicas”, completa.

Para ele, uma mera questão isolada em um exame pode parecer pouco, mas reflete uma tendência maior: é consequência direta da confusão entre Estado, agenda e escola, uma prática comum nos últimos anos em que o aparelhamento do setor público se tornou norma. 

“Em mãos de elaboradores inábeis, sejam bem ou mal intencionados, o que é ruim fica ainda pior: a prova, com a de 2018, evoca elementos que poderíamos chamar de ‘lacração’, que nada tem a ver com interesse nacional, formação científica ou humanística de base”, diz Dennys.

Direitos humanos

No primeiro dia do Enem, os temas políticos se repetiram: textos de Eduardo Galeano, autor uruguaio de esquerda, trecho de discurso do presidente João Goulart contra a privatização da Petrobrás. Direitos humanos já são um tópico recorrente, mas sem abordar sua composição legal. 

“Os ‘direitos humanos’ do Enem não têm nada a ver com os direitos humanos propriamente ditos, que são aqueles previstos na Constituição, nas leis e tratados internacionais com força de lei no Brasil”, destacou Miguel Nagib, fundador da Associação Escola sem Partido, em artigo publicado recentemente na Gazeta do Povo. 

Para Nagib, a definição de direitos humanos adotada pelo Enem é de “valores como cidadania, liberdade, solidariedade e diversidade cultural” e assim a manutenção da pauta dos direitos humanos no Enem é uma forma de incentivar a doutrinação em larga escala e assegurar o uso das escolas como instrumento de engenharia social. 

Distorção ideológica

À primeira vista, pareceria não haver problema algum em pedir “respeito aos direitos humanos”; no entanto, o governo federal sempre teve uma visão muito particular do que sejam direitos humanos, expressa na terceira edição do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3), objeto do Decreto 7.037/2009, atualizado pelo Decreto 7.177/2010. 

Nesse plano, o governo federal não aborda apenas temas consensuais na sociedade brasileira, como a condenação ao racismo ou à violência contra a mulher, mas também impõe uma série de visões sobre assuntos controversos, como a defesa do direito ao aborto, questões relativas à identidade sexual e ao controle dos meios de comunicação. 

“Tal como tem sido concebido, o exame se torna a projeção evidente de um processo educacional falido, ancorado em bandeiras ideológicas e discursos sectários cuja importância, em ambiente formativo de base, é nenhuma”, conclui Dennys.

Como sempre, o professor Stephen Kanitz é preciso em sua análise sobre o desastre da Adminitração Pública brasileira nos últimos governos (aqui link para o post original):





FHC, Lula e Bolsonaro

(Por Stephen Kanitz)





"A crise que estamos passando é na realidade a crise do fracasso da elite pensante brasileira de prover para o povo brasileiro.
Essa elite intelectual em vez de resolver problemas, agravou-os.
Embora Dilma fosse a gota d’água, o governo mais intelectual que tivemos foi o do FHC, início dessa lenta derrocada.
FHC colocou intelectuais desde o Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Banco Central.
Maus administradores que são, temos hoje a volta de dezenas de doenças, sem produção de vacinas.
Temos um desastre na educação onde 68% são Ciências Sociais, áreas preferidas desses intelectuais.
Temos um Banco Central e Tesouro quebrados e insolventes. Como isso é possível, com as mentes mais brilhantes da época?
Não é à toa que FHC deu ensejo ao populismo de Lula, e esse sentimento de que nada funciona nesse país gerido por essa elite intelectual.
FHC gerou Lula e o populismo, descontentes com a estagnação econômica, e a mentira que o fim da inflação traria crescimento.
(Devido ao juro elevado determinado por Pedro Malan e Gustavo Franco que estavam “comprando” inflação baixa, endividaram e quebraram o Brasil.)
Lula, o populista, curiosamente foi por um caminho estranho. Em vez de uma política “o povo decide”, colocou outros intelectuais que só pioraram a situação.
Intelectuais como Aloizio Mercadante, Luciano Coutinho, Nelson Barbosa, Guido Mantega.
Criticar Bolsonaro por ser low brow, nada intelectual, é não entender seus eleitores, enganados que se sentem por essa elite intelectual, em minha opinião fake e prepotente.
Mesmo fenômeno elegeu Donald Trump, para o desespero dos intelectuais americanos.
O que a população quer é menos intelectuais gastando nossos impostos e atrapalhando nossas vidas.
Metade da população já deu um basta a esse intelectualismo, e quer menos impostos, menos serviços e mais armas para cuidarem da própria segurança, porque nossos intelectuais acham que bandidos são as vítimas da sociedade.
Posso entender o pânico dos nossos intelectuais, especialmente jornalistas, com o crescimento de Bolsonaro, mas o fato que precisam digerir é que foi justamente a incompetência flagrante dos nossos intelectuais que criou esse mito e esse desalento com o futuro da nação."

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Por muito tempo, fez sucesso nas quadras de vôlei. Atualmente faz sucesso com seus artigos publicados no Estadão. 

Abaixo, mais um, no qual descortina com lucidez a tremenda estupidez que acomete parte da "intelectualidade" brasileira:


Entre Suzano e Janaúba

Por Ana Paula Henkel

Meus pesadelos mais apavorantes não poderiam imaginar a cena do crime ocorrido em Janaúba (MG) no final do ano passado. Meu coração nunca vai se recuperar totalmente do ato heroico de Heley Abreu Batista, a professora que lutou até o fim, em meio às labaredas, contra o vigia da creche que ateou fogo em várias crianças, levando dez delas, de apenas quatro anos, à morte. O inferno era ali.

A professora teve 90% do corpo queimado e também faleceu, algumas horas depois, no hospital, assim como o louco que causou a tragédia. Rezo para os três filhos que Heley deixou, que eles possam para sempre se orgulhar do exemplo, da coragem e da força da mãe. Sou mãe, mas quem sou eu, quem somos nós perto de Heley?

Há um Brasil que envergonha, mas existe também aquele que não aparece nos jornais, que não vira tema de novela, que não é mostrado na música do momento, mas que ainda nos dá esperança. Heley se sacrificou por nós, por nossos filhos, e por um povo que ainda insiste em ser moral, justo e fraterno apesar de tudo.

Lembrei da professora-mártir ao ver as imagens angustiantes da cabo da PM que enfrentou um assaltante com antecedentes criminais que agressivamente apontava uma arma para mães e crianças na porta da escola da sua filha em Suzano (SP), outra heroína brasileira devidamente homenageada não só pelo governador paulista Márcio França, mas principalmente pelo povo brasileiro. Kátia da Silva Sastre evitou uma tragédia igual ou maior do que aquela ocorrida em Minas Gerais sem que um inocente ameaçado pelo bandido fosse ferido de raspão. Viva Kátia!

O que une Heley e Kátia é o senso de dever acima da própria vida, é a recusa de assistir passivamente a crianças em claro risco de vida e cruzar os braços, terceirizando a responsabilidade de ajudar o próximo que é de todos nós. O que separa Heley e Kátia é que a policial tinha treinamento e armamento legal para enfrentar o mal. Duas mulheres admiráveis, dois exemplos, mas apenas um final feliz. Dez crianças morreram queimadas em Janaúba, nenhuma se feriu em Suzano.

Vivo num país em que o cidadão tem a permissão constitucional, sob regras e leis muito claras e bem definidas, de portar uma arma para sua proteção e de sua família. A América tem 50% a mais de habitantes que o Brasil e apenas uma fração do número de assassinatos por cem mil habitantes. Os dados são ainda mais discrepantes quando se divide por cidade, quando fica claro que regiões com leis mais restritivas, do tipo que lembram as do Brasil, não por coincidência possuem índices de violência muitas vezes superiores ao das cidades que respeitam à Segunda Emenda da Constituição.

Mesmo os malabarismos estatísticos ou o sensacionalismo ativista gerado por tragédias em zonas livres de armas não podem esconder os fatos. Onde as Kátias americanas podem proteger a si mesmas e os filhos, há muito menos crimes do que em locais onde as Heleys morrem, junto com suas crianças, desarmadas, desprotegidas e servindo de alvo para criminosos e psicopatas. As mães de Houston, no Texas, dormem mais tranquilas que as de Chicago, Illinois. Cidades parecidas, leis diferentes, resultados quase opostos. Ideologia mata.

Aqui nos EUA, a cabo Kátia Sastre está sendo tratada por todos no noticiário como heroína, uma policial que honrou sua formação e seu juramento de proteger a sociedade. Em nome da sanidade, da moral e do bom senso, prefiro não falar dos comentaristas no Brasil que, de suas torres de marfim com seguranças armados na porta, optaram vergonhosamente por fazer críticas absurdas e insensíveis à ação de Kátia. Mesmo meus amigos californianos mais à esquerda, ao verem o vídeo em que a policial consegue proteger mães e crianças atirando no homicida em potencial, não acreditaram que no Brasil haja debate sobre se ela fez o certo ou não.

O que essa gente tem na cabeça e, principalmente, no coração? Mesmo sabendo que a defesa de teses ideológicas indefensáveis conta pontos em certas redações e jantares, será que não param um segundo para pensar que crianças foram salvas por Kátia, assim como vidas são todos os dias salvas por policiais como ela, numa ação irrepreensível de uma profissional treinada e habilitada para fazer o que fez? Que tipo de gente deixamos invadir parte de nossos jornais e veículos de comunicação? Onde querem chegar com “pesquisas” sobre “se policiais de folga devem reagir a assaltos”? E bombeiros de folga, devem ou não ajudar num incêndio na escola do filho? Pior que notícias falsas, só corações falsos.

Como eu queria que Heley tivesse uma chance de realmente salvar aquelas crianças e a si própria, como fez Kátia. Meu coração se despedaça por ambas, mas hoje só posso mandar um beijo para uma delas. A outra, apenas minhas orações, reverência e admiração pelo exemplo. Kátia não apenas salvou o dia, ela também, sem saber, prestou a mais bela homenagem à memória de Heley.

O Brasil que eu quero é aquele que Heley possa, se necessário, ser Kátia por um dia.

sábado, 5 de maio de 2018

J.R. Guzzo é, no momento, uma das únicas, senão a única, voz sensata que permanece na Revista VEJA. Este seu artigo é irretocável. Mais que isso, será considerado documento histórico, qualquer que seja o desfecho para nossa cambaleante Democracia. (link para a publicação original).

O golpe em construção

Há uma guerra contra o estado de direito neste país, comandada pelas forças que não podem conviver com ele



"Responda com franqueza, por favor: se amanhã ou depois o ministro Gilmar Mendes, por exemplo, fosse despejado do seu gabinete no Supremo Tribunal Federal por um terceiro-sargento do Exército, enfiado num camburão verde oliva e entregue na penitenciária da Papuda por ordem do Alto Comando das Forças Armadas, quantas lágrimas você derramaria por ele? Esqueça as lágrimas. Você, ao menos, diria alguma coisa, qualquer coisa, contra a prisão do ministro? Ou, ao contrário, acharia muito bem feito o que lhe aconteceu? Só mais uma coisa: entre Gilmar Mendes (ou Toffoli, ou Lewandowski, ou Marco Aurélio, etc.) e o general que mandou todos para o xadrez, depois de passar a chave no STF e evacuar o prédio, você ficaria ao lado de quem? Para completar o exercício, basta somar ao Supremo o Congresso Nacional inteirinho, com seus 513 deputados e 81 senadores, os 27 governadores de Estado e mais os milhares de reizinhos, sem concurso público e sem competência, nomeados para mandar na máquina pública ─ onde se dedicam a roubar o erário, para si e para os chefes, e a infernizar a sua vida. Se as Forças Armadas assumissem o governo, fechassem o Congresso e demitissem essa gente toda, de preferência mandando a maioria para o xadrez, tente calcular quantos brasileiros ficariam a favor deles e quantos ficariam a favor dos militares. Chegue então às suas conclusões.

Intervenção militar, golpe militar, regime militar, ditadura militar ─ francamente, quem gosta de falar abertamente dessas coisas? É preciso ficar contra, é claro ─ e ficar contra agora pode vir a ser um belo problema depois, se a casa acabar caindo um dia. É verdade que o cidadão que tem algum tipo de interesse em política já não sente maiores incômodos em tocar no assunto, principalmente se não tem mais paciência com o lixo que as mais altas autoridades da República produzem sem parar e depositam todos os dias na sua porta. Não chega a ser uma surpresa fenomenal, assim, que um número cada vez maior de cidadãos esteja começando a achar que seria uma boa ideia se os militares assumissem de novo o governo do Brasil para fazer uma limpeza em regra na estrebaria que é hoje a vida pública do país. Mas entre os políticos, nos meios de comunicação, nas classes intelectuais e em outros lugares onde as pessoas supostamente “entendem” dessas coisas, é um assunto que se trata como um porco-espinho ─ com extremo cuidado. É melhor não ficar comentando em voz alta, dizem. Não é o momento, não é o caso, não “se trabalha com esse cenário”. É como falar mal do defunto no velório, na frente no caixão. Tudo bem. Mas não é assobiando que se faz a assombração ir embora. Nem fazendo cara de preocupado em programas de televisão ou escrevendo artigos para solicitar aos militares, por favor, que respeitem rigorosamente a Constituição, as instituições e os monstros que ambas criaram e hoje estão soltos por aí. É preciso muito mais do que isso.

Está complicado, em primeiro lugar, porque muita gente nem acha que essa assombração é mesmo uma assombração ─ ao contrário, acha que é a equipe de resgate chegando para salvar os feridos. Quantos brasileiros, hoje, seriam a favor de uma intervenção militar? É pouco provável que os institutos de pesquisa façam a pergunta, porque têm medo de ouvir a resposta ─ mas eis aí, justamente, um indicador muito interessante. Dá para se deduzir, por ele, que uma grande parte da população receberia com uma salva de palmas as imagens de tanques rolando nas ruas e políticos, ministros supremos e empreiteiros de obras se atropelando uns aos outros para fugir pela porta dos fundos. Em segundo lugar, está complicado porque democracias só ficam de pé se elas forem vistas como um bem importante e compreensível pela maioria da população ─ e se houver um número suficiente de cidadãos dispostos, de verdade, a brigar por sua manutenção. Muito bem: quantos brasileiros acham que estão sendo realmente beneficiados, em suas vidas cotidianas, por essa democracia que veem desfilar à sua frente no noticiário de cada dia? E quantos topariam sair à rua para defender, por exemplo, os mandatos dos senadores Romero Jucá, Renan Calheiros ou Jarbas Barbalho?

O fato, que não vai embora por mais que se queira fazer de conta que “as instituições estão funcionando”, é que praticamente ninguém, no mundo político, merece o mínimo respeito do cidadão hoje em dia. Honestamente: alguém seria capaz de dizer o contrário? Se os encarregados de manter o regime democrático em funcionamento se desmoralizam todos os dias, e desprezam abertamente as regras da democracia com a sua conduta criminosa, fica difícil supor que está tudo bem. Nossas autoridades “constituídas” acham que está. Como a Constituição diz que é proibido fechar o Supremo, o Congresso, etc., imaginam que podem continuar fazendo qualquer barbaridade que lhes passar na cabeça. Imaginam que os militares, informados de que existe uma “cláusula pétrea” mandando o Brasil ser uma democracia, se veriam obrigados, por isso, a continuar assistindo em silêncio a anarquia promovida diante de seus olhos por magistrados do STF, ministros de Estado, líderes parlamentares e os demais peixes graúdos que têm a obrigação de sustentar o cumprimento das leis ─ mas vivem em pleno colapso moral e não conseguem mais segurar no chão nem uma barraca de praia.

É cansativo ouvir, mais uma vez, que a democracia é uma coisa e as pessoas que ocupam os cargos de governo são outra. Não se deve confundir as duas, reza a doutrina, pois nesse caso um regime democrático só poderia existir numa sociedade de homens justos, racionais e bondosos; se as pessoas que mandam estão mandando mal, a solução é substituí-las por outras através de eleições, processos na Justiça e demais mecanismos previstos na lei. Mas o Brasil está fazendo mais ou menos isso desde 1985, e até agora não deu certo. Alguém tem alguma previsão sobre quanto tempo ainda será preciso esperar? A democracia brasileira faliu; é possível que nunca tenha tido chances reais de existir, por insuficiência de gente realmente disposta a praticá-la, mas o fato é que estão tentando fazer o motor pegar há mais de 30 anos, e ele não pega. Talvez ainda desse para ir tocando adiante por mais tempo, com um remendo aqui e outro ali. Acontece que neste momento, justamente, há muito menos esforço para escorar o que está bambo do que para tacar fogo na casa inteira.

A questão central, curiosamente, é a manutenção da lei. Nove em dez golpes, ou nove e meio, são dados por quem tem a força armada e quer mandar a lei para o espaço. Aqui parece estar se montando o contrário. Os militares dizem, como deu a entender semanas atrás o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, que exigem o cumprimento da Constituição e das leis penais para continuar nos quartéis. Quem está querendo abolir a aplicação da lei são os que não têm as armas, mas chegaram à conclusão que não conseguem sobreviver se forem mantidas as regras atuais da democracia brasileira. Está mais do que claro de quem se trata. Trata-se, em primeiro lugar, do ex-presidente Lula, do PT e dos seus partidos auxiliares. Em segundo lugar vem o populoso cardume de políticos, de qualquer partido, que estão fugindo da Justiça penal por prática de corrupção e outros crimes ─ são centenas de indivíduos, literalmente. Em terceiro lugar, fechando a trindade, estão as empreiteiras de obras públicas, fornecedores do governo e o restante das gangues que vivem de roubar o Tesouro Nacional. Todos estes precisam desesperadamente de uma virada de mesa que solte Lula da prisão, salve da linha de tiro os ladrões ameaçados pela lei e devolva condições normais de operação para o negócio da ladroagem de dinheiro público em geral.

O último esforço em seu favor foi essa grosseira ofensiva dos ministros Toffoli, Lewandowski e Gilmar para tirar Lula da prisão, suprimir provas dos processos criminais que ele tem pela frente, anular sua condenação, impedir o trabalho do juiz Sérgio Moro ─ em suma, fraudar a Justiça penal brasileira numa trapaça de escala realmente monumental, com o vago objetivo de “zerar tudo”. É o sonho de Lula e seus advogados milionários de Brasília, do Complexo PT-PSOL-PCdoB etc., e de dez entre dez ladrões sob ameaça de punição: declarar a Operação Lava Jato ilegal, sumir com tudo o que ela já fez, está fazendo ou vai fazer e demitir o juiz Moro a bem do serviço público, junto com todos os magistrados que combatem a corrupção no Brasil. Eles não dizem isso, é claro: sua conversa é que estão aplicando o embargo dos embargos de agravo teratológico com efeito suspensório, diante da combinação hermenêutica de mutatis mutandisinterlocutórios com ora pro nobis infringentes. Não perca o seu tempo com o vodu jurídico do STF sobre “direito de defesa” que a mídia repassa a você com casca e tudo: é pura tapeação para ver se soltam Lula da cadeia e ajudam a ladroagem ─ primeiro para que ela escape da penitenciária e, em seguida, para permitir que continue roubando em paz.

É disso que se trata. Há, simplesmente, uma guerra contra o estado de direito neste país, comandada pelas forças que não podem conviver com ele. Lula e o seu sistema de apoio não querem a democracia. Recusam-se, abertamente, a cumprir a lei e a aceitar decisões legítimas da Justiça; sabem que não têm futuro num regime democrático, com poderes independentes, Lava Jato, imprensa livre e o restante do pacote. Estar no governo, para essa gente, não é a mesma coisa que seria para você. Eles precisam estar no governo. Não só para ter empregos, fazer negócios e ganhar dinheiro da Odebrecht, mas porque enfiar-se no poder é a diferença entre estar dentro ou fora da cadeia. É por isso que os senadores petistas Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann, entre outros, se agitam tanto. Se as leis continuarem a ser normalmente aplicadas, podem ter diante de si, em breve, ações penais duríssimas. É por isso que o deputado Wadih Damous, também do PT, disse outro dia que “é preciso fechar o Supremo Tribunal Federal” ─ depois de reconhecer que o ministro Gilmar é um “aliado” do partido. (O deputado não esclareceu o que pretende fazer com ele, mais os Toffolis, Lewandowiskis e similares, depois de fechar o STF.)

O mundo político e a elite, caídos de quatro no chão, olham em silêncio para tudo isso, aterrorizados por Lula e assustados com a voz da tropa. Quando quiserem reclamar, podem se ver reclamando tarde demais e em muito pouca companhia."

segunda-feira, 26 de março de 2018

"A virtude e a moral só existem se forem uma escolha livre e autónoma dos indivíduos em praticar o bem. A ética e a escala de valores variam de pessoa para pessoa. Impor um código de conduta moral aos outros é totalitário." 

(Telmo Azevedo Fernandes)

Clique aqui para ler este artigo imperdível (publicado no jornal português Observador e reproduzido no Blog do Orlando Tambosi)