terça-feira, 7 de junho de 2016

Este artigo foi publicado no O Antagonista.

É excelente e compreendê-lo ajuda a entender o pensamento petista.

Boa leitura:


30 de Maio de 2016

Você não precisa escolher motocicletas

Por Mario Sabino
Um dos malefícios causados pelo PT foi a ideologização de todos os aspectos da vida. Ideologização que transita entre a desonestidade intelectual e a mais absoluta insanidade.
Veja-se o caso do estupro coletivo da adolescente carioca, ainda não totalmente esclarecido. Petistas culparam o governo Temer -- ou a direita -- pela "cultura do estupro" no Brasil. Seria um dos lados mais perversos da exploração capitalista. Como escrevi em O Antagonista, o argumento não passa de um estupro da razão.

O jornalista Tales Alvarenga, que morreu em 2006, dois anos depois de deixar a direção da Veja, costumava fazer piada com os estereótipos inculcados pela esquerda. Ele dizia que alcançavam até mesmo as motocicletas. "Quem gosta de Harley-Davidson é de esquerda; quem prefere as motos de corrida é de direita", brincava. Não duvido que haja gente que chegue a esse ponto.

Na década de oitenta, um livrinho de Marilena Chauí antecipava o fenômeno. Intitulava-se "O que é Ideologia" e integrava a coleção "Primeiros Passos", da editora Brasiliense. O opúsculo serviu para doutrinar milhares de estudantes secundaristas e universitários. A professora da USP, petista de primeiríssima hora, afirmava que tudo -- absolutamente tudo -- era ideologia, numa simplificação grosseira daquela outra banalização bem mais vasta chamada marxismo.

Para os ideólogos da ideologia onipresente, onisciente e onipotente, os valores morais que erigiram a civilização ocidental são instrumentos de manipulação das "classes dominantes". Uma forma de manter sob o seu jugo a massa trabalhadora. Transgredi-los em prol da causa socialista é, mais do que desculpável, necessário. Só devem ser esgrimidos para ferir quem discorda de você, como demonstra a interpretação maluca, mas com método, do episódio do estupro coletivo. O "moralismo udenista" tem lá utilidade.

Na verdade, a ideologização extrema é o exato contrário da politização. Ela relativiza o certo e o errado, embaça as consciências, inviabiliza o debate e impossibilita os consensos. Está para a política como o fanatismo para a religião. Não existe o "PT light", o PT sempre foi "xiita", para ficar na imagem ipanemense de trinta anos atrás.

O que nos salva é a vagabundice. Na Rússia de 1917, a ideologização produziu uma ditadura que terminaria quase setenta anos mais tarde. No Brasil do PT, gerou o maior assalto aos cofres públicos de que se tem notícia. Marilena Chauí não é Marx; Lula não é Lênin.

Lembre-se, portanto: você não precisa escolher motocicletas.

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